Epidemia perigosa

Já faz um tempo que tenho a intenção de escrever sobre essa epidemia que nos assola. Iniciar o site foi um passo importante. Ler a coluna do Pasquale Cipro Neto, na Folha, foi o empurrão que faltava.

A epidemia a que me refiro nada tem a ver com dengue ou zika. A zica (essa com ‘c’) é outra. O prof. Pasquale inicia sua coluna com um ótimo exemplo do problema. Diz ele:

Pergunto a uma funcionária de uma companhia aérea: “Qual é a antecedência máxima para fazer o check-in no autoatendimento?”. Olhos (dela) esbugalhados; silêncio sepulcral. Pouparei o leitor da sequência do diálogo. Resignado, desisti e troquei a pergunta genérica pela específica: “Viajo dia tal. Já posso fazer o check-in no ‘totem’?”.

Muita gente tem imensa dificuldade para abstrair, para entender o que é sistematizado. Não é por acaso que se repetem perguntas que parecem diferentes, mas são iguais.

Depois continua com uma excelente descrição do sistema de acentuação da língua portuguesa. Vale a pena a leitura, mesmo que você não goste do assunto. A questão colocada é , como o próprio título da coluna, a dificuldade para pensar no que é sistematizado. Ou, de forma mais ampla, a falta de pensamento sistêmico. Como costumo dizer nas minhas aulas ou até mesmo em conversas informais com amigos e colegas, estamos vivendo hoje no Brasil uma epidemia de falta de visão sistêmica.

Visão sistêmica é o famoso conectar o com o cré. E a falta dela nos afeta cada vez mais. Isso é geral. E também aparece fortemente nas organizações. É a atendente do telemarketing que não conecta o atendimento que ela faz ao salário que recebe. É o vendedor que acha bom quando a loja está vazia, pois pode ficar no whatsapp falando bobagens. Não vê que cedo ou tarde será prejudicado. Em sua curta visão, é como se seu salário viesse apenas do chefe e não daqueles clientes que pararam de frequentar a loja. E, mais sério ainda, quando um gestor que trabalha no departamento X enche a boca para falar que tal problema não é dele, é do departamento Y. Quem não está farto dos serviços tão ruins a que somos submetidos nos mais diferentes setores?

Falta boa gestão. Falta pensamento sistêmico!

Exemplos existem às pencas e não são de hoje. São governantes e legisladores que não conseguem pensar em políticas de forma integrada, prejudicando a toda população. A peste negra na Europa, no século XIV, a morte de milhões de chineses causadas pelas decisões do “grande timoneiro”, Mao Tse Tung, e os problemas da lei seca nos EUA na década de 1920 são exemplos de outros tempos e lugares. Em todos esses casos, consequências inesperadas em relação às medidas adotadas aconteceram e os resultados foram desastrosos. Só que o tempo passou, muitas pessoas aprenderam com a experiência e tentaram enxergar os ocorridos de uma forma ampla, conectada.

O problema comum era justamente a falta de visão sistêmica, ou seja, as decisões foram tomadas sem se conhecer o sistema em que os problemas estavam inseridos, isto é, sem a compreensão das múltiplas variáveis envolvidas e em como elas se relacionam. Nesse ponto vale recomendar o livro do Prof. João Arantes, Desvendando Sistemas. Além de contar de forma muito bem humorada alguns dos exemplos acima, o livro é leve e didático para quem quiser ser introduzido ao tema (sem falar nos excelentes cartoons ilustrativos, que também são de autoria do João).

Mas não é preciso ir mais longe com os exemplos. O noticiário de qualquer jornal é um prato cheio. Zyka, dengue e outros problemas de saúde. Aliás, nessa linha, há pouco acabei de ler a visão do Dr. Drauzio Varella (esse sim com muita visão sistêmica) sobre a bomba relógio que é o sistema de saúde brasileiro (que, por falta de visão sistêmica, é focado na doença e não na prevenção – se não agirmos sistemicamente, já dá para saber onde vamos parar). A seção de política e economia então, nem se fale. Mas o pior, que é o que me interessa aqui, são os serviços e produtos de má qualidade que recebemos por aqui, frutos de má gestão.

As causas dessa epidemia são diversas e não cabe entrar em detalhes aqui. Suspeito que muito dela tem origem no nosso sistema educacional. Afinal, hoje é o longo prazo de decisões ‘curtoprazistas’ que foram tomadas há décadas. Pensar a escola de maneira utilitarista, em que os alunos devem apenas aprender a “ler, escrever e contar” gerou batalhões de pessoas que são incapazes de conectar o com o cré. E como já é clichê dizer que as instituições e as organizações, e até mesmo os países, nada mais são do que as pessoas que lá estão, é fácil concluir que essa crise de má gestão é reflexo de más decisões das pessoas, que por sua vez foram “treinadas” a ver o mundo de forma compartimentada, ver apenas os fragmentos, só a sua parte (não surpreende essa polarização que vemos na política hoje: incapazes de pensar de forma sistêmica, só nos resta simplificar a realidade e olhar o mundo do único ponto de vista que conseguimos ter).

Outra fonte da falta de visão sistêmica (talvez até como resultado desse primeiro aspecto apontado) é a própria forma como as organizações se estruturam, em silos, departamentos com metas específicas, que, atingidas, beneficiam uma área, mas atrapalham a empresa como um todo. Não dizem isso do caso da empresa de projetos que teve um prejuízo de 10 milhões em determinado ano? Quando foram analisar os projetos desenvolvidos, descobriram que, dos 20 projetos feitos naquele ano, apenas 2 deles resultaram em prejuízo de 20 milhões. Ou seja, se os dois projetos não tivessem sido feitos, a empresa teria lucrado 10 milhões. O vendedor foi questionado de por que havia fechado a venda de projetos tão arriscados. Nisso ele respondeu: “eu sou pago para vender e não para dar lucro”. Nada mais natural.

Mas como resolver esse problema que assola o país? Não nego que os problemas que temos são de múltiplas facetas: são problemas políticos, econômicos; há diversos interesses etc. e tal. Mas não tem como não passar pela educação. Aprender a ler, sim, mas ler também o mundo, ler o ponto de vista diverso do meu e aprender com ele. Aprender a escrever, com certeza; também é preciso escrever uma nova história nas instituições. E para poder escrever é preciso ter sobre o que pensar. É aí que entram as artes, a filosofia, a sociologia, as ciências. Chega de focar apenas no que resolve o problema de agora (“e o resto a gente vê depois”). E por fim, claro, contar. Não só do ponto de vista matemático, mas contar histórias e, principalmente, contar com os outros, confiar, e que possam contar conosco, ou seja, que haja respeito de forma ampla na sociedade.

Quando se pensa sistemicamente logo é possível começar a perceber que qualquer problema é também problema seu, por ação ou por omissão. Ver algo de ruim acontecendo tem que “doer”, tem que levar a alguma ação e não simplesmente a achar, covardemente, que “alguém tem que fazer alguma coisa”. Cada um pode começar por si. É preciso estudar também. Nesse sentido, faço coro ao escritor Pedro Bandeira: “Brasileiros têm de entender que estudar não é chato; chato é ser burro“. Só estudando é possível desenvolver a visão sistêmica e, a partir daí, começar a combater a epidemia.

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